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Abril Azul mobiliza para a inclusão de pessoas com espectro autista

Estagiário de Jornalismo com autismo é o autor desta notícia e conta sua história e dificuldades decorrentes de um diagnóstico tardio

Matheus Lourenço de Oliveira e Silva é autista e realiza estágio na área de jornalismo.
Matheus, de 23 anos, faz estágio em jornalismo na Assessoria de Comunicação da Câmara(Foto: Elson Sempé Pedroso/CMPA)

Este mês é o Abril Azul, período voltado a ajudar a população de todo o mundo a se conscientizar sobre a inclusão de pessoas com autismo. O Dia Mundial de Conscientização do Autismo é celebrado em 2 de abril. Em referência a essa data, a Câmara Municipal de Porto Alegre, através de projeto de abril de 2015 do vereador Paulo Brum (PTB), incluiu o Dia Municipal de Conscientização sobre o Autismo no Calendário de Datas Comemorativas de Conscientização do Município, também em 2 de abril.

Outro projeto de Paulo Brum, de março de 2016, reconheceu o portador de transtorno do espectro autista como pessoa com deficiência, proporcionando a plena fruição dos direitos previstos pela legislação do município. Na prática, a proposta visa a garantir atendimento integral e adequado aos autistas e possibilita o diagnóstico precoce do transtorno.

Outra celebração sobre o tema, em nível mundial, é o Dia do Orgulho Autista, no dia 18 de junho. Criado em 2005, a campanha é uma iniciativa lançada pela organização Aspies for Freedom, dos Estados Unidos, e tem o objetivo de celebrar o lado positivo do autismo e trabalhar a ideia da neurodiversidade.

O autismo

Em todo o mundo, mais de 70 milhões de pessoas são portadores de autismo, o que corresponde a cerca de 1% da população mundial, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). No Brasil, cerca de 2 milhões de pessoas são autistas. O autismo é dividido em três níveis: leve, moderado e grave. A patologia pode ser identificada já nos primeiros meses de contato do bebê, e o diagnóstico prévio é fundamental. Mesmo o autismo poder ser determinado apenas por um especialista, algumas reações podem ser observadas em quem tem a doença, como por exemplo: não se reconhecer pelo nome, não reclamar ao ser deixado sozinho, ter fisionomia pouco expressiva, não interagir com outras pessoas e ter comportamentos repetitivos.

Os portadores dos transtornos do espectro autista podem se destacar em habilidades visuais, música, arte e matemática. O espectro pode ser associado com deficiência intelectual, dificuldades de coordenação motora e de atenção e, às vezes, o autista pode ter problemas de saúde física, como sono e distúrbios gastrointestinais, e podem desenvolver problemas como transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, dislexia ou dispraxia. Na adolescência, pode-se desenvolver ansiedade e depressão.

Alguns sintomas

a maioria das pessoas com autismo é boa em aprender visualmente;
algumas pessoas com autismo são muito atentas aos detalhes e à exatidão;
geralmente possuem capacidade de memória muito acima da média;
é provável que as informações, rotinas ou processos uma vez aprendidos sejam retidos;
algumas pessoas de espectro autista conseguem concentrar-se na sua área de interesse específico durante muito tempo e podem optar por estudar ou trabalhar em áreas afins;
a paixão pela rotina pode ser fator favorável na execução de um trabalho;
indivíduos com autismo costumam ser funcionários leais e de confiança;

Síndrome de Asperger

A Síndrome de Asperger é um transtorno do espectro autista, anteriormente considerada uma condição relacionada, mas distinta do autismo, sendo redefinida em maio de 2013. O portador dessa anomalia não apresenta grandes atrasos no desenvolvimento da fala, nem sofre com o comprometimento cognitivo grave. Essas pessoas costumam escolher temas de interesse, que podem ser únicos por longo tempo, costumando falar repetidamente nesse assunto. Habilidades incomuns, como memorização de sequências matemáticas ou de mapas, são comuns em pessoas com essa síndrome.

Na infância, as crianças com Asperger apresentam déficits no desenvolvimento motor e podem ter dificuldades para segurar o lápis para escrever. Têm pensamentos com estrutura bastante concreta e não conseguem interpretar metáforas e ironia, o que prejudica o processo de comunicação. Além disso, não sabem como usar os movimentos corporais e os gestos na comunicação não-verbal, se apegando a rituais e tendo dificuldades para realizar atividades que fogem à rotina.

Entre as pessoas famosos que são apontadas como portadoras da Síndrome de Asperger estão: Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Ludwig van Beethoven, Mozart, Isaac Newton, Jane Austen, Emily Dickinson, Vincent Van Gogh, Charles Darwin, Albert Einstein, Alfred Hitchcock, Al Gore, Bill Gates, Bobby Fischer, Stanley Kubrick, Susan Boyle, Tim Burton, Lionel Messi, Dan Aykroyd, Steven Spielberg e Keanu Reeves, entre outros.

O Dia Internacional da Síndrome de Asperger é celebrado no dia 18 de fevereiro, data do aniversário de nascimento do descobridor do transtorno, Hans Asperger.

Relato de um autista

Meu nome é Matheus Lourenço Oliveira e Silva, tenho 23 anos, nasci em 18 de fevereiro de 1995 no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Desde o início da minha vida, minha mãe percebeu que tinha algo errado, já que aprendi a ler aos 3 anos de idade, mas só descobri que tinha Síndrome de Asperger em setembro de 2009, quando tinha 14 anos. Minha mãe pagava uma psicóloga para mim, mas eu só descobri a doença quando saí de lá, indo para o CAPSi Casa Harmonia, na Avenida Loureiro da Silva. 

No início, eu não aceitei o diagnóstico, vou confessar. Talvez por não conhecer a doença, parecia que eu não era normal. Para minha mãe, era um alívio saber o que tinha de errado comigo, depois de uma busca de mais de dez anos.

Fiquei no CAPSi até os 17 anos, mas não aceitava muito bem o tratamento. Foi lá que postei meus dois primeiros vídeos do meu canal do YouTube, em janeiro de 2010: ensaio e paródia da música Tumbalacatumba Tumba Tá, da Vovó Mafalda, que conheci nesta época. Depois disso, fiz culinária (detesto cozinhar) e até futebol, mas nada que me ajudasse com o meu transtorno. Fiquei sem atendimento até os 20 anos, quando um médico que trabalhava no Hospital Psiquiátrico São Pedro me indicou para lá. Porém, como não tinham especialistas em Asperger lá, fui encaminhado para uma médica residente que era especialista em ansiedade. Fiquei poucos meses lá, pois era apenas uma triagem. E foi lá que eu percebi que descobri a doença tarde demais: a médica pediu um teste genético para mim no Hospital de Clínicas, mas não pude fazer, pois estava velho demais, eles só fazem em crianças. Só pude fazer uma tomografia na cabeça, que mostrou que eu não tinha problemas neurológicos, como retardo mental.

Frequentei a escola normalmente, até por ter descoberto tarde a doença, mas tinha algo errado comigo. Eu nunca tive muitos amigos, algo me dificultava na parte social. E era o Asperger. Quando pequeno, gostava muito de balançar coisas, como bandeiras, o que passou hoje para um caderno de desenho. Mas desde aquela época, eu sabia o que queria: trabalhar com comunicação. O que era bem estranho para um aspie, nome dado aos portadores da doença. Com cerca de 9 anos, já fazia jornalzinho e vendia.

Quando eu tinha 12 anos, na 6ª série, minha psicóloga me encaminhou para a psicopedagoga da minha escola. Fiquei um ano lá, no horário da aula de artes, pois, como tenho problema na parte motora (um dos possíveis sintomas do autismo), não conseguia acompanhar a turma. Porém, eu não aceitava muito bem o tratamento, nem da psicóloga, nem da psicopedagoga. E comecei a ter raiva dela. 

Como podemos ver, eu nunca fui uma pessoa fácil de lidar. Tive problemas de relacionamento com colegas, família e todos à minha volta. Até hoje. Mas sou considerado um bom aluno, pois presto atenção na aula, sem bagunçar muito, e, assim, não preciso estudar para as provas. Inclusive, não estudei para nenhum dos dois ENEMs que fiz, nem para a Olimpíada de Matemática, na qual ganhei certificado de Menção Honrosa por ter ficado entre os 50.000 primeiros do país.

Falando em ENEM, consegui um terceiro lugar do colégio em que estudava (Padre Reus, no bairro Tristeza) no simulado da prova. Na primeira vez que fiz a avaliação, em 2013, fiquei com quase 680 pontos de média aritmética, com 719 pontos em matemática, conseguindo assim uma vaga na faculdade de Design de Games no Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), entrando em 2014. No mesmo ano que entrei na faculdade, não estando contente com o curso, fiz outro ENEM. A redação caiu 300 pontos, o que baixou um pouco a minha nota. Porém, minha nota em matemática subiu para 755 pontos e todas as provas tiveram notas acima dos 600 pontos. Assim, consegui uma vaga no curso de Jornalismo, na mesma instituição, entrando na metade de 2015.

Não tenho acompanhamento atualmente, mas poderei começar muito em breve, já que trabalho na Assessoria de Comunicação Social da Câmara Municipal de Porto Alegre. Tenho uma pessoa que faz um esforço grande para me ajudar, pelo menos no âmbito da faculdade: minha professora do jornalismo, Mariana Oselame, que nunca desistiu de mim. 

Para quem conhece uma pessoa com autismo, tenho uma mensagem: não desista dela, acolha-a e dê apoio ao que ela faz, pois ela precisa de atenção, carinho e acolhimento.

Texto: Matheus Lourenço (estagiário de jornalismo)
Edição: Carlos Scomazzon (reg. prof. 7400)

Tópicos: síndromeAspergerespectro autistaautismoAbril Azul