Perfil

Haitiana trabalha na Câmara em busca de uma vida melhor

Farah Romulus chegou sozinha a Porto Alegre e há oito meses é copeira da Presidência do Legislativo

  • Funcionária haitiana da Câmara Municipal, Farah, conta sobre sua trajetória.
    A imigrante vive na capital gaúcha faz um ano (Foto: Giulia Secco/CMPA)
  • Funcionária haitiana da Câmara Municipal, Farah, conta sobre sua trajetória.
    Farah na rampa de acesso do Palácio Aloísio Filho(Foto: Giulia Secco/CMPA)

Dona de um jeitinho aparentemente acanhado e de palavras pronunciadas com consideráveis intervalos de silêncio, os dentes cintilantes e expostos de Farah Romulus, 33 anos, de uma orelha a outra, fazem quebrar o gelo. Natural de um país caribenho, o Haiti, ela poderia estar esbanjando alegria se estivesse entre os seus. Como dizia Guimarães Rosa, "é junto dos bão que a gente fica mió". Mas chegou sozinha a Porto Alegre há um ano e trabalha como copeira no gabinete presidencial da Câmara Municipal faz oito meses.

Por falar em trabalho, Farah escolheu a Capital por duas oportunidades específicas. A primeira, porque já tinha conhecidos na cidade. A segunda, pelo fato de considerar a estadia uma chance de conseguir emprego. Em meio a pronúncias atropeladas do português, que ela ainda não domina, às vezes do crioulo (língua oficial do país dela), outras em espanhol e até em francês - a moça é trilingue ou mais -, contou que escolheu viver no Brasil em razão de que no Haiti não tem onde laborar e, consequentemente, falta dinheiro. 

Contratada por meio da empresa terceirizada DH, o início no Brasil foi difícil. Como qualquer começo. Não porque não soubesse exercer a função de copeira. Isso a profissional tirou de letra. Enquanto esteve em Santo Domingo, capital da República Dominicana, país vizinho ao Haiti,  trabalhou em um bar, foi cozinheira e costureira na Ilha de São Domingos. Difícil, no caso, foi pelas necessidades enfrentadas.

Quando aterrissou em solo brasileiro, por pouco tempo teve um teto para morar. Logo foi despejada. Sobre a alimentação, doeu no estômago, na alma e na lembrança do assunto. Roupas pesadas para enfrentar o inverno gaúcho ela também não tinha. Mas um anjo em forma de trabalho caiu do céu: servir no Legislativo municipal e, com isso, o contato com pessoas solidárias. 

"Dois momentos foram bastantes sensíveis na introdução da Farah aqui", destacou, com nós cegos na garganta e os olhos marejados, a fiscal de contratos da Seção de Serviços Auxiliares da Câmara, Vera Anita Silva da Conceição. "Fiquei desconfiada nos intervalos para almoço. Todos se alimentavam, menos ela", recordou. Conforme Vera, mesmo com o prato vazio, a copeira não reclamava, tampouco pedia qualquer pedacinho para os colegas. Além disso, a passagem do inverno fez a haitiana tremer de frio e Vera de piedade. "Durante a estação, vi que ela não tinha o que vestir. Chamei meu colega Fernando, aqui da Câmara, e fomos comprar um casaco para ela", rememorou a servidora ao citar, já com a voz baixa, que "é difícil falar sobre isso". 

Quem circula pelos corredores do Legislativo, tem acesso ao gabinete da Presidência ou participa das sessões plenárias, no Plenário Otávio Rocha, certamente já deparou com uma mulher prestativa e vaidosa, sempre com uma bandeja na mão. Os cabelos, que ressaltam essa vaidade, estão constantemente mudados, pretos, ora com mechas coloridas, ora com penteados exuberantes. Atualmente, com a timidez diminuta, os olhos menos desviantes e o sorriso fácil, a confiança é quase imediatamente entregue para traçar diálogos com desconhecidos. 

Vaquinha virtual para trazer os filhos

No Haiti, ficaram os pais dela, as quatro irmãs, os dois irmãos, um filho de 15 anos e outro de sete. A saudade é pungente, sobretudo dos filhos. O contato via o aplicativo WhatsApp é pouco. Nada como matar a saudade na presença da pessoa. Por isso, com o desejo de trazer os filhos para o Rio Grande do Sul, o servidor Carlos Fernando Aragonez, por meio de uma "vaquinha" virtual, já conseguiu arrecadar a quantia de R$ 6 mil. Faltam R$ 2 mil. Enquanto isso, a funcionária da terceirizada trabalha de cabeça erguida. "Quando estou trabalhando, me sinto feliz. Em casa não tenho com quem conversar, daí me sinto triste", falou emocionada. 

Texto: Bruna Schlisting Machado (estagiária de Jornalismo)
Edição: Claudete Barcellos (reg. prof. 6481)

Tópicos: imigrante do HaitiFarah Romulus